43/2020: A ÚLTIMA TEMPESTADE

"Sim, ele era o autêntico opressor, o machista que nunca admite perder, ela teve certeza. Lamentou confirmar mais uma vez que havia se casado com um sujeito perigoso. A realidade de Laura, infelizmente, era a realidade de muitas mulheres. Ela sabia que, naquele exato momento, muitas outras sofriam na mão de sujeitos doentes e violentos.Quando essa realidade mudaria?".
Olá, como estão todos?
Hoje vamos começar a semana com a resenha de um livro que  traz uma abordagem que, infelizmente, não deixa de ser atual. Vamos conversar sobre a história de Laura, uma personagem que sofre, assim como diversas mulheres, de abusos no relacionamento.

Venham comigo!


Título Original: A Última Tempestade

Autor: Luciane Monteiro

Ano: 2020

Páginas: 286

Editora: Inverso


Sinopse

Laura Viana cresceu nos Estados Unidos, porém retornou ao Brasil para buscar suas raízes e fugir de uma decepção amorosa. Contudo o destino não lhe reservou boas surpresas em sua terra natal e o Texas voltou a ser seu destino, onde teria que remexer velhas feridas e tentar sentir-se segura novamente.

A Última Tempestade aborda a violência doméstica e psicológica contra a mulher, descrevendo uma dentre milhares de histórias que poderiam ter retratado dramas reais vivenciados por diferentes mulheres. Contudo, o foco deste livro não é apenas a violência doméstica, mas a esperança, o modo como a personagem renasce e recomeça, juntando os cacos de si mesma.

O destaque é o amor, a amizade, a persistência. É por isso que o livro traz dois momentos na vida da personagem, mostrando as tempestades e calmarias que intercalam nossas vidas.


Abordando um tema muito sério, de importante atenção a violência doméstica ― seja ela em suas formas física e emocional, a história de Laura, protagonista criada por Luciane Monteiro, tem uma narrativa com ótimos pontos a serem considerados a uma boa trama: suas descrições de cada ambientação, as sensações dos personagens, que são muito bem relatadas, além da acertada construção de diálogos.
"Mas naquela tarde, ali no litoral, não havia nem mesmo chuva. O clima parecia tão delicado que desejou aquela suavidade para seu dia a dia também, porém sabia que não haveria. O céu misturava cores que, junto à brisa fria brincando com o calor de um sol tímido, trazia sensações de sua infância".
É nítido o trabalho de pesquisa feito pela autora com base em toda a proposta do seu material, bem como nas vivências de cada sujeito por ela criado.

Luciane Monteiro consegue nos transmitir emoções acerca do que lemos, projetando-nos a situações muito próximas da vida real.

Dentro dessa premissa, conseguimos sentir  o medo de Laura, silêncios e constrangimentos, sua opção por trocar de profissão a adequar-se aos caprichos de seu marido Fábio e seu isolamento. Uma aparente tristeza que junto vinha de oscilação de humor.

Com relação ao seu esposo,  as reações referentes ao uso de entorpecentes levavam-no a insultar e agredir sua esposa, o que vinha com frequentes pedidos de desculpas e promessas de que não mais aconteceria, assim como atribuição de culpa a questões financeiras, por exemplo. Algo que só foi aumentando com o tempo.
"Eram sempre os amigos dele que faziam parte da vida social dos dois, pois ela não tinha mais ninguém. Não podia ter amigos do sexo masculino porque ele dizia que todos tinham segundas intenções com ela; (...) Ou seja, no final, ela desistiu de ter amigos também".

Mesmo sendo muito difícil, é com o apoio de seu pai, que também já fizera o mesmo com sua mãe quando Laura era criança, que resolve dar os primeiros passos em busca da mudança.
Em um dado momento, ela opta por procurar ajuda, para compreender melhor que vivia num relacionamento abusivo
Aí, vê-se a busca pelo resgate da sua autoestima.
"Ela tinha medos que quase enlouquecia em seus pensamentos".
Com isso,  finalmente constatou que a sua realidade era a mesma de muitas mulheres.

Ao decidir dar esses difíceis primeiros passos, boas lembranças começaram a rondar a sua mente e o seu coração. Laura reencontra seu antigo amor. Entretanto, desvencilhar-se de um passado tão duro e cruel não lhe seria algo tão fácil.


Sobre a autora

LUCIANE MARTINS MONTEIRO é natural de Paranaguá, residente em Curitiba. Graduada em Letras pela PUC-PR, pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira pelo CEFET-PR, e em Ensino de Jovens e Adultos pela Faculdade São Braz
Atualmente leciona inglês para alunos do ensino médio no Colégio Estadual São Pedro Apóstolo. Participou das antologias Po&Teias 1 e 2, com um grupo de escritores independentes, e da Antologia Conto Brasil.
Lançou, como escritora independente, o e- book Estela Becker solitária e intensa, e o livro História de uma vida: Memórias de Dona Nilce.

Bom, em meio a uma história tão intensa, posso afirmar tamanhas questões que me conduziram a reflexões. Em suma, não me decepcionei, mais uma vez com a escrita da autora.
Aliás, tem resenha aqui no blog do livro Taça Escarlate, também de Luciane Monteiro . 
Acessa aí!

Beijos literários!



5 comentários

  1. Interessante este livro, embora aborde um tema (ou temas!) pesado - mas que deve ser discutido também, então só por isso a leitura é super válida. Dica anotada!
    Beijinhos, parabéns pela resenha e boa semana.
    Isabelle
    https://blogalgodotipo.wordpress.com/

    ResponderExcluir
  2. Buongiorno cara mia, que bom encontrar mulheres abordando esse tema, é urgente isso. Não é um tema fácil, nem mesmo para pesquisa e falo por experiência própria porque ao escrever Alice, uma voz nas pedras foi muito difícil encontrar e conversar com mulheres a respeito do drama vivido. Existe vergonha, horror e claro toda a dificuldade em falar do que se viveu e do que sofreu. Não é fácil ser uma vítima e pior, ser exposta a uma sociedade que aponta e fere de novo e de novo e de novo.
    A personagem da Luciane, pelo que eu entendi, tem um desfecho feliz. O que é raro, infelizmente. Na vida real, a maioria dos desfechos são horríveis. E o tempo de recuperação também não é nada fácil.
    Vou procurar pelo livro, mas não pretendo ler por enquanto, ainda estou a bordo da trama com a qual convivi nos últimos anos e confesso precisar de outros temas.

    bacio

    ResponderExcluir
  3. Nossa, que tema pesado. Pela capa eu jurava que seria algum romance new adult, mas aparentemente vai muito além disso (não que assuntos sérios como esse não sejam discutidos em new adult hehe). Nunca li um livro que realmente seja focado em violência doméstica, por isso fiquei bem curiosa para saber principalmente como a protagonista vai lidar com tudo isso. E que bom saber que não te decepcionou, pois geralmente os autores só jogam esses assuntos, mas não o discutem de forma apropriada.

    ResponderExcluir
  4. Esse tema é muito pesado e difícil de ler e, ao mesmo tempo, de fundamental discussão. Não sei se leria nesse momento (quarentena, isolamento, inverno - tudo isso pede leituras mais leves), mas anotei o título e o nome da autora, pois acredito em prestigiar a literatura nacional.

    Abraços!

    ResponderExcluir
  5. É estranho esse tipo de assunto, em "certos níveis", ainda ser visto como "normal" por pessoas que cresceram vendo alguns tipos de "agressão" como "normais", com desculpas machistas e que não cabem mais com tanta informação e leis. Fico perplexo e tocado ao ler sobre, algumas mulheres que ainda se vêem culpadas por coisas que, nem na mais deformada e doentia desculpa, passam perto de verdade. Parabéns pela resenha e dica anotada :)

    Abraços

    ResponderExcluir