26/2020: #12MesesComClarice - CONTO: FELIZ ANIVERSÁRIO

"Enquanto cantavam, a aniversariante, à luz  da vela acesa, meditava como junto de uma lareira".
Olá, como estão? Espero que bem, pois eu já estava com saudades de passar por aqui para conversarmos sobre  Clarice Lispector e o projeto #12MesesComClarice ! 

A resenha de hoje será sobre o conto Feliz Aniversário, que também consta no livro  Todos os Contos, publicado pela Editora Rocco . Vamos conferir?! ;)


Um passeio a um encontro de família em Copacabana. Familiares que pouco se viam, apenas naquela, ou em ocasiões parecidas, pois pouco se falavam.

Laços de família, como aliás, em muitas,  teriam sido cortados, ou estariam por um fio. Mas, num momento como aquele, em que anualmente veriam-se, todos queriam competir, mostrarem-se uns aos outros, fazendo questão de insinuar estarem bem.
"Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, imponente à cadeira, desprezava-os".
Era uma festa de aniversário. "Oitenta e nove anos!", diga-se de passagem. Entretanto, certa "obrigação", em princípio, em prol da aniversariante, provocava anualmente o encontro daquelas pessoas que fitavam-se através de olhares, rancores, incômodos e murmúrios.



Não seria aquele o dia de conversarem sobre negócios. Jamais! Aquele seria o momento de comemorarem o aniversário "da mãe", Dona Anita. Afinal, eram "oitenta e nove anos!", e muita disposição, mesmo parecendo por algumas vezes fazer-se de surda pela idade, ou estar calada. Talvez, em certas horas fosse mesmo melhor apenas observar.

Ela era forte, porém seus filhos não passavam de fracos, em sua visão de quem os assistia em constância.
"Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. (...) Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio".
Todos que ali estavam pareciam estar sempre a espera de algo a dizer, menos ela, a aniversariante, que, inesperadamente, de uma forma ou de outra, surpreendera àqueles. Mas não como num dia qualquer, era o dia do seu aniversário. E não se importava com os olhares de espanto e de reprovação, ou com certos julgamentos acerca de atitudes que poderiam ser da sua idade. Ela não ligava! E, em verdade, não precisava. 

No meio de todo aquele alvoroço, com crianças correndo pela casa, noras com narizes retorcidos, ela bem dera o seu recado e, ao fim da celebração, ainda pruma em sua cadeira,  ainda pensava se haveria comida, ou se o bolo teria mesmo sido a janta, enquanto todos despediam-se e desciam as escadas já pensando na festa dos seus noventa anos.
"Com um punho fechado sobre a mesa, nunca mais ela seria apenas o que ela pensasse. Sua aparência afinal a ultrapassara e, superando-a, se agigantava serena. (...) É preciso que se saiba. É preciso que se saiba. Que a vida é curta. Que a vida é curta. Porém nenhuma vez mais repetiu. Porque a verdade era um relance."


A sabedoria desta senhora em calar-se e falar somente nos instantes que julgava corretos, a fim de dar certa lição aos seus filhos, noras e netos, não mais importando-se com o que pensariam (ela realmente, no auge da idade, não precisava!), a mim foi notável! 

No fim das contas, mesmo entre olhares, e certas desconfianças, deu seu recado com sabedoria e precisão. "A vida é curta!". Então, por que não aproveitarem junto dela, desfrutarem daquela data em que  completava "oitenta e nove anos!"

E assim o fizeram, já um tanto mais aliviados, aparentemente, já pensando em como seria o próximo, os seus noventa anos. Data bonita, digna de se guardar na lembrança, mesmo que ali chegassem entre os dentes e alfinetadas, inseguros, como provavelmente em todos os anos, mas  no íntimo sabendo que ela, com a sensatez de sua avançada idade, irá contornar e fazer do seu jeito ao final.

Sobre a autora


Autora de romances e contos que figuram entre os mais emblemáticos da literatura brasileira, Clarice Lispector é considerada uma das mais importantes escritoras do século XX. Sua popularidade alcançou níveis surpreendentes nas últimas décadas, especialmente após o fenômeno da internet, mas sua figura e sua obra seguem exercendo sobre leitores o mesmo e fascinante estranhamento que causaram desde sua estreia literária, em 1943. Nesta coletânea, que reúne pela primeira vez todos os contos da autora num único volume, organizado pelo biógrafo Benjamin Moser, é possível conhecer Clarice por inteiro, desde os primeiros escritos, ainda na adolescência, até as últimas linhas. Essencial para estudantes e pesquisadores, para fãs de Clarice Lispector e iniciantes na obra da escritora, Todos os contos foi lançado nos Estados Unidos em 2015, figurando na lista de livros mais importantes do ano do jornal The New York Times e ganhou importantes prêmios, como o Pen Translation Prize, de melhor tradução. Agora é a vez de os leitores brasileiros (re)descobrirem por completo esta contista prolífica e singular.

Fonte: Skoob

Por hoje é isto! espero que tenham gostado, pessoal! 

Beijos literários!

5 comentários

  1. Eu adoro essa tag 12 meses com Clarice, sempre é uma satisfação relembrar os contos dessa maravilhosa escritora. Feliz Aniversário é um dos meus preferidos, adoro narrativas com questões envolvendo ligações familiares.

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  2. Eu sinceramente adorei também este conto! Essa senhora lhes passa, assim como a nós, uma super lição de vida! Grata pelo seu carinho, viu?! Bjinhos

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  3. Eu amo os seus posts sobre Clarice. E esse como sempre está lindo! Amei cada foto. Um dia ainda quero ler esse livro <3 você me deixa cada vez mais curioso.

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  4. O encontro de diferentes gerações e as rusgas que isso pode gerar sempre rendem reflexões incríveis, ainda mais nas mãos de alguém como Clarice. Ótima resenha! Abs ♥

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  5. A vida parece eterna, até que acaba. Reafirmar como ela é curta parece ser redizer um óbvio há muito esquecido. Dona Anita foi muito contundente em sua afirmação, como era de se esperar de uma personagem de Clarice Lispector.

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