19/2020: #12MesesComClarice - CONTO: A IMITAÇÃO DA ROSA

"... Laura tinha tal prazer em fazer de sua casa uma coisa impessoal; de certo modo perfeita por ser impessoal".

Olá, como vão! Que delícia é trazer resenhas dos textos de Clarice Lispector pra vocês com o projeto #12MesesComClarice ! Hoje a conversa será sobre o conto A Imitação da Rosa, que também consta no meu livro de leitura anual, Todos os Contos, publicado pela Editora Rocco . Bora trabalhar!


O conto traz a história de Laura, em sua vida rotineira, e de seu marido Armando.

A escritora relata que ali, a partir de determinado momento da vida do casal, ambos estariam retornando a uma monotonia para eles prazerosa: irem para a casa de seus amigos Carlota e João. 

Laura era uma mulher de casa, daquelas que apreciava seu esposo e as "conversas de homens", os noticiários em jornais, enquanto sua amiga Carlota tinha como características  o seu inverso, traços marcantes seriam uma risada forçada e a ambição, algo que ela preferia não arriscar, optando por lentidão em seu ser.

Diferentemente da protagonista, Carlota fazia questão de se autoafirmar, já num período em que era nítida tal impessoalidade. Não se agradava do cotidiano.

No conto, é nítido o autoritarismo machista aceito pela personagem, bem como a preocupar-se diariamente em estar sempre "pronta a esperar por Armando", com seu habitual vestido marrom com gola de renda na cor creme.
"Seu rosto tinha graça doméstica, os cabelos eram presos com grampos atrás das orelhas grandes e pálidas. Os olhos  marrons, os cabelos marrons, a pele morena e suave..."

Laura era a perfeita dona de casa, que firmava seu dia a dia em meio aos mais rústicos afazeres domésticos.  Era uma passadeira de mãos cheias e orgulhava-se disso, e de poder dizer "estar cansada" por conseguir executar suas exímias tarefas caseiras. Aparência e beleza eram coisas que não lhe fariam importância, mas sim a discrição e a calmaria apagadas em sua alma conformada.

Falando-se em beleza, perfeição foram as rosas a chamarem sua singela atenção. Eram miúdas, porém belas a ponto de incomodar-lhe. Até que resolvera dar-lhes para Carlota (ou  será que não deveria?). 

Algo a incomodara, afinal, aquelas seriam as suas rosas! Fato é que Laura as deu de presente para a sua amiga. E arrependeu-se. Essas lhe fizeram falta de imediato, a ponto de comparar o vazio que sentira a certa fadiga, como quando, por algum motivo, deixava de passar as camisas de seu marido.
"Olhou-as, tão mudas na sua mão. Impessoais na sua extrema beleza. Na sua extrema tranquilidade perfeita de rosas. Aquela última instância: a flor. Aquele último aperfeiçoamento: a luminosa tranquilidade".
Mais um conto dessa escritora incrível, trazendo o aspecto social de uma época e a forma como se portavam as mulheres, avessas, muitas vezes, como era o caso de Laura, em sua postura mais retraída e conformada. Por outro lado, Carlota, extrovertida e pouco preocupada em agradar outros que não fossem ela e suas vontades nada moderadas.

"As rosas haviam deixado um lugar sem poeira e sem sono dentro dela". 


Algo a me atrair a esse trabalho de Clarice, foi o considerável aumento de intensidade nas ações de Laura, quando dela surge a admiração pela rosa, assim como a dúvida acerca de sua entrega ou não à Carlota. A mim soou como se aquele evento tivesse causado impacto considerado na sua morna vida. Foi como se a partir daquele episódio tão simples, para a personagem, tivesse sido tão atribulado, que chegasse a gerar uma certa aceleração causada pela autora, provocando gradual cadência à leitura, à narrativa do conto.


E aí, gostaram? Contem pra mim!

Beijos literários!


9 comentários

  1. Sim, gostei, ter a oportunidade de ler Clarice Lispector é sempre um prazer. Mais um conto que retrata o posicionamento da mulher em épocas passadas, infelizmente eram tempos de retraimento onde o machismo imperava.

    ResponderExcluir
  2. Ai Ana que saudade que eu estava do seu blog ❤️
    Toda vez que eu vejo você falando dessa autora eu fico com vontade de ler tudo dela! *-*

    ResponderExcluir
  3. Eu ainda não tive oportunidade de ler nada da Clarice Lispector, mas achei os poucos trechos que você postou aqui de uma intensidade que - nossa! Sinto que, tal como a rosa na vida de Laura, esse escritos podem ter um impacto enorme na minha vida literária. Ótima resenha como sempre!

    ResponderExcluir
  4. Oi! Eu gostei muito desse conto! Foi com certeza um dos contos mais intensos de Clarice que li. Ela consegue muito bem nos transportar para a mente cheia de angústias da protagonista. Um trabalho primoroso e mais uma vez cheio de reflexões.

    ResponderExcluir
  5. Nossa, que interessante esse conto. Acredito que eu me identifico um pouco com a Laura, apesar de não ter uma vivência nenhum pouco parecida. É que às vezes a gente simplesmente se acostuma com a nossa vida. Ela poderia ser melhor, poderia ter mais emoção, mas a gente tá tão preso em algo que não conseguimos aceitar isso. Uma espécie de inércia, ou até medo do que existe além dessa mesmice.

    ResponderExcluir
  6. Que delícia poder ler mais essa resenha dos textos de Clarice Lispector e saber que você está dando continuidade ao projeto #12MesesComClarice. Porque eu, particularmente adoro. Acho muito bacana essa crítica social e revelação sobre o assunto abordado do autoritarismo e machismo aceito pela personagem. Nota-se que já naquela época a escritora possuía essa visão reflexiva e impacto que algo pode ter na nossa vida pacata, transformando-a. Gostei de sabe mais sobre esse conto!

    ResponderExcluir
  7. Olá minha cara, como vai? Espero que bem:) Ainda não li nenhuma "obra inteira" de Clarice, mas já pesquisei algumas, e já sua resenha aumentou a vontade de ler algo.

    abraço

    ResponderExcluir
  8. Eu ainda não tive a oportunidade de ler Clarice, mas quero mudar isso em breve. E sempre que vejo suas postagens sobre a autora minha vontade só aumenta.
    Amo muito seu projeto, sempre saio cheia de indicações ao ler sobre #12MesesComClarice.
    Gostei muito dos trechos que você trouxe e de sua resenha.
    Beijos,
    Subsolo da mente

    ResponderExcluir