15/2020: VOZES DO JOELMA - DIÁRIO DE BORDO - DIA 04: O HOMEM NA ESCADA (VICTOR BONINI))

"Ele tá comigo na escuridão: pode ter ficado um pouco pra trás, no topo da escada ou... Ou aqui mesmo. Bem na minha frente, a um palmo da minha cara, sorrindo pra presa. Escuto alguma coisa de metal cair no piso de concreto, a centímetros do meu pé".
Seguindo como uma espécie de sequência linear do tempo a acompanhar os demais contos, em "O Homem na Escada" Victor Bonini traz uma história que retrata uma vivência muito intensa nos dias de hoje, envolta ao oportunismo e a conivências de pessoas que intendem a tirar vantagens das necessidades alheias, tocando no ponto fraco de tantas famílias, pelo que nos preza a Constituição como direitos básicos aos cidadãos: moradia, educação, alimentação...

...dignidade!


Contrastado à realidade brasileira e a constante expectativa de melhoria econômica do país relatada através da imponência do Edifício Joelma, no caso da obra, até o caos tomado pelo fogo e a agonia de tantos, o escritor nos conduz a relatos da personagem Solange,  que aqui seria uma moradora por ocupação popular e irregular da localidade, caso o Joelma tivesse sido "abandonado", o que não é verídico, diga-se de passagem, e que fique claro o intuito de uma ficção próxima a realidades atuais, aliadas ao sombrio delineado por Bonini.

Em suas narrativas e/ou reflexões, Solange, vez ou outra, dialogava com uma espécie de voz em sua mente.

Mas seria mesmo essa voz unicamente a sua consciência, ou algo/alguém mais estaria constantemente junto dela?

Fato é que ela sofria com o relacionamento, abusivo por sinal, que sua filha Eugênia mantinha com o homem de confiança de Dinei, líder do que seria na história a ocupação no amaldiçoado Edifício.

Certa vez, ela presenciou o rapaz, durante uma briga, chutar a barriga de sua filha, que estava grávida.

Desconcertada, Eugênia, a chorar, corre para as escadarias dos Correios, seu local de refúgio. Solange decide ir atrás dela, deixando-o em seu apartamento. No caminho, depara-se com a sensação de estar perto de um homem estranho, de cheiro fétido, que sacode um molho de chaves, e que tem-se a impressão de tocá-la. (Algo muito interessante a ser pontuado aqui são as descrições de tais sensações que o autor muito bem coloca na trama).

Após esse "encontro" com o homem na escada, ela verifica que seu genro estaria morto em sua residência. Para surpresa do leitor, a personagem sente um misto de alívio e alegria,  ao invés de qualquer outro sentimento avesso. Contudo, sabe o quanto seria difícil convencer Dinei de que não teria sido ela a assassina de seu braço direito. Afinal de contas, ele estaria lá, na sua casa. Esse passaria a ser o seu grandioso e talvez fatal segredo, que precisava aguentar calada, mesmo acabando por envolver tantas outras pessoas, algumas inclusive tornando-se vítimas de seus mais tenebrosos pensamentos e desejos. 

Em minha humilde convicção, através desse conto podemos reforçar nossas reflexões acerca de que todos nós possuamos, mesmo que o mais intimamente possível, tanto um lado de bondade quanto de obscuridade. E é necessário nos conhecermos muito bem para percebermos tais faces da moeda em nosso ser.

Sobre o autor

VENCEDOR DO PRÊMIO ABERST DE LITERATURA COM O LIVRO “O CASAMENTO” NA CATEGORIA DE MELHOR ROMANCE POLICIAL

Victor Bonini nasceu em São Paulo, morou em Vinhedo, interior do estado, e voltou à capital para cursar jornalismo. Sempre lhe perguntam se, ao longo da vida, havia indícios de que seria um autor de mistério. Aos sete anos, escolheu o filme Pânico como tema da festa de aniversário. Na adolescência, devorou todos os livros policiais e de terror que pôde encontrar. Na universidade, seu elogiado trabalho de conclusão de curso, em parceria com Mariana Janjácomo, gerou um livro sobre o caso Pesseghini, apresentando vários aspectos do crime que chocou o país em 2013--o trabalho não foi publicado a pedido da família das vítimas. E aos vinte e dois anos, quando lançou seu primeiro livro, Colega de Quarto, pela Faro Editorial, ele finalmente entendeu que escrever sobre assassinos e psicopatas é a forma de entender a mente humana e calar os pensamentos que o assombram. Além de autor, Victor é jornalista e passou pelas redações da TV Globo, GloboNews e VEJA.

E aí, o que acharam, pessoal? Eu estou adorando! 
Por hoje é isso, mas logo conversaremos sobre a última etapa desse projeto que tanto gostei de trazer para vocês!

Beijos literários!


2 comentários

  1. Já comentei no post do conto anterior que a história do Joelma sempre me assustou, mas ao mesmo tempo me desperta curiosidade. Achei muito boa essa ideia de usar um cenário e um contexto real para desenvolver as histórias. Esse post me despertou o interesse só de ver o nome do Victor Bonini, que eu "conheço" desde a comunidade no Orkut sobre a Agatha Christie. Só recentemente descobri que ele tinha livros publicados e corri pra ler e a escrita dele é ótima e certamente com esse conto não é diferente.

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  2. Gosto muito de ler histórias que abordem a dualidade do ser humano, foquem no lado bom e mau que todos nós temos. E tudo se torna mais interessante quando se mescla ficção com realidade, tendo a tragédia do Joelma como pano de fundo.

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