10/2020: #12MesesComClarice - CONTO: AMOR

"Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite _ tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca".
Ana


Dona de casa, serena,  aparentemente. Doce, responsável e íntegra à sua família. 

À sua vida, tudo que tinha lhe bastava. Era tudo perfeito, porque não havia desconfortos. As coisas se encaminhavam, e se direcionavam de maneira a não lhe retirar de sua famigerada zona de conforto, que era o seu casamento.
O cenário não poderia ser outro senão o Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.


Mas eram as tardes que lhe traziam certa inquietude, já que, de sua rotina diária, não muito naquelas horas teria o que fazer, o que lhe resultava em pensamentos...

Fato é que, bem lá em seu íntimo, Ana tinha em si uma vontade grande "... de sentir a raiz firme das coisas". Burlara-se, condicionara-se a sua vida de adulta, e sequer lembrava-se do período anterior ao seu casamento. Parara naquele tempo, naquela constância de suas tarefas, sempre iguais, sem cor, aparentemente sem sentidos...
" E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera".
Certo dia, no bonde, um cego a mascar seu chiclete e sorrindo mexera consigo. Talvez no momento, tamanha escuridão a mostra sua vida, dita perfeita, sem aparentes problemas, num vai e vem de situações que a causam desmedido incômodo, por assemelhar-se ao ruminar daquele chiclete na boca do homem. Ela, incomodada sem motivos palpáveis, parecia demonstrar sentimento de ódio no olhar.
"Mas a vida arrepiava-a, como um frio".
  • Seria mesmo Ana uma mulher feliz, satisfeita com a sua vida conjugal? 
  • Ou estaria apenas conformada com o habitual e corriqueiro no seu cotidiano?

Em monstruosa aflição, reflexões e o sentir da brisa na noite, suas práticas familiares são retomadas em meio ao adormecer da cidade no verão. Mas Ana... Ah, ela não era mais a mesma!
"E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu".

Em seis páginas, a escritora nos traz o desvelar de uma mulher que se converte às sinceridades de vidas alheias à sua, na rua, em casa, após abrir verdadeiramente seus olhos através da cegueira de um desconhecido que a conduziu em certa visão mundana.

Em longas linhas, com uma linguagem forte e ao mesmo tempo sublime, Clarice Lispector em seu conto intitulado "Amor" nos traz as inquietudes de Ana, protagonista, em momentos de recolhimento em desígnios, que aos olhos de alguém como a Ana esposa, com que estava habituada, pareceriam tão fúteis, mas que a ela, aquela agora de olhos abertos, não o seriam, mas talvez pudessem estar lhe causando dores, dúvidas, e uma vontade grandiosa de desabafar, assim, por nada, ou por tudo, dentro dela.
"E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia".

Projeto #12MesesComClarice, agora em 2020, tem segmento pelos blogs parceiros, Café com Leitura BlogConduta LiteráriaLeitura Enigmática e Sobre a Leitura, que em todos os meses desse ano irão lhes trazer resenhas de contos da autora, extraídos do livro Todos os Contos, publicado pela Editora Rocco , além de possíveis variedades dentro do trabalho de Clarice.

Bom, eu simplesmente me encantei com esse conto tão forte dentro da realidade dessa mulher relatada pela escritora. E vocês, o que acharam? Contem aqui nos comentários!

Beijos literários!

10 comentários

  1. Amiga, que resenha maravilhosa você trouxe!
    Tinha certeza que esse conto lhe conquistaria pela protagonista homônima.
    Me vi com vontade de voltar ao Jardim Botânico e dar mais valor às pequenas coisas depois de ler esse conto.
    Ansiosa para o que os próximos contos nos reserva.

    Beijão!
    Amanda

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    1. Ah, amiga, parece que essa protagonista, até no nome, me lembrou alguém! Hahaha!Até hoje, em um ano, foi o conto que mais conversou comigo! No dia que for ao Jardim Botânico, me chame!Bjs

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  2. Achei igualmente forte esse conto, parece que Ana está e descobre um mundo completamente novo, da para sentir através de suas palavras e da autora ela 'saindo da casinha' e que incrível, nada melhor do que abrir os nossos olhos para as oportunidades né! Achei muito interessante o conto e suas palavras sobre ele estão maravilhosas!

    Beijos Isa.

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    1. É verdade! Quantas coisas ela passou a enxergar ao seu redor! Nossa! O melhor conto de Clarice para mim até hoje! Bjs

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  3. Eu sempre digo isso, mas porque é verdade mesmo: eu adoro esse projeto maravilhoso e cheio de leituras ótimas da Clarice Lispector! Gostei bastante de conhecer mais essa obra repleta de reflexão dessa autora que eu admiro o trabalho. Já fiquei curiosa e imaginando como deve ser o cenário do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, já que eu ainda não pude conhecer na vida real e nem literária. Meus parabéns, Ana! Adorei conferir as suas considerações sobre a narrativa também.

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    1. Oi! também amo esse projeto, sabe!? Sabe que também nunca fui ao Jardim Botânico?? Mesmo sendo Rio! Rs!Obrigada pelo carinho! Feliz que tenha gostado! Bjs

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  4. Oie, tudo bem? Gosto muito de acompanhar esse quadro. Tanto pela sua percepção acerca de Clarice quanto as indicações trazidas por você. Sempre que leio um post assim me sinto nostálgica. Lembro quando fazia cursinho e de todos os livros indicados pelo meu professor de literatura. Não sei porque... mas esse assunto sempre me motivou a participar das aulas. Um abraço, Érika =^.^=

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    1. Oi! Honrada por saber que gosta de nos acompanhar por aqui!Continue, por favor! ;) Também sinto algumas sensações com os contos dela, e nostalgia é um dos sentimentos, em algumas histórias! Bjs

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  5. Olá!!
    Que linda postagem. Eu amo esse quadro, pois me desperta ainda mais uma curiosidade de lee Clarice..
    Gosto muito de ler contos e sempre estou de olho nas suas indicações. Espero ler em breve.
    Adorei os quites que você trouxe, beijos!!

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  6. Oi! Fico feliz por despertar em você a vontade de ler Clarice!Quando puder, o faça! ;) Vale a pena! Bjs

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