08/2020: #12MesesComClarice - CONTO: DEVANEIO E EMBRIAGUEZ DUMA RAPARIGA

"A manhã tornou-se uma longa tarde inflada que se tornou noite sem fundo amanhecendo inocente pela casa toda. Ela ainda à cama, tranquila, improvisada. Ela amava... ".
Olá, todos, como estão? E hoje é dia de darmos continuidade ao Projeto #12MesesComClarice , agora com ainda mais afinco, já que, em 2020 mais especificamente, essa honrosa mulher estaria, em 10 de dezembro, completando seus cem anos. 
Então, com muita alegria e orgulho, o Café com Leitura Blog, junto dos blogs Conduta LiteráriaLeitura Enigmática e Sobre a Leitura, com certeza terão muito o que compartilhar com vocês, assim como em 2019, através de um conto da autora por mês, ao longo dos doze meses do ano, extraídos do livro Todos os Contos, publicado pela Editora Rocco , o que não irá nos impedir de alçar novos voos com a sua escrita no ano do centenário dessa que foi considerada uma das melhores escritoras do século XX.
Bora então para de conversar e conhecer o conto de hoje!

O conto chama-se Devaneio e Embriaguez Duma Rapariga, e situa o leitor através da história de uma portuguesa, que vive com seu marido e filhos no país, aparentemente, no período histórico brasileiro do Rio de Janeiro enquanto capital, o que nos torna evidente por meio do vocabulário proveniente da época, como "rapariga", "parola d'aldeia", assim como pontos da cidade considerados importantes e ressaltados como, por exemplo, as Ruas do Riachuelo e a  Mem de Sá, além da Praça Tiradentes.

Típico das histórias de Clarice envolvendo o universo feminino, certo dia, essa mulher  solitária vive à sua cama um dia inteiro a devanear, como sugere o nome do conto, abrindo mão, naquele momento, da sua rotina considerada entediante. Isso, obviamente, deixa seu marido um tanto pensativo e transtornado.

Estaria sua esposa doente?

"Quem sabe lá, isso às vezes acontecia, e sem culpas nem danos para nenhum dos dois. Na cama a pensar, a pensar, quase a rir como a uma bisbilhotice. A pensar, a pensar. O quê? ora, lá ela sabia. Assim deixou-se a ficar".
Sua trama se passa em um restaurante, evidenciando ainda mais a vivacidade feminina mais relacionada à época em questão, ressaltando seu peso, que aparentemente por ela é notado certo fascínio de um amigo de seu marido, trazendo-lhe o instinto de reflexões o tempo inteiro, assim como também uma carga intensa de sensações atribuídas a essa senhora.

Por entre um beberico e outro da mulher, sua embriaguez reflexiva ocorre, trazendo à tona seus devaneios...


Na amplitude da escrita da autora, nota-se que o leitor tem acesso a um conto de cinco páginas, havendo certa complexidade na sua narrativa.

"Mas as palavras que uma pessoa pronunciava quando estava embriagada era como se estivesse prenhe _ palavras apenas na boca, que pouco tinham a ver com o centro secreto que era como uma gravidez. Ai que esquisita estava".
O realce típico de muitas mulheres, avesso às épocas, é retratado pela escritora ao mostrar-nos a protagonista um tanto insegurança quanto ao observar uma outra dama no restaurante, como que, em sua mente estivesse, de certa maneira, concorrendo com ela  em beleza, causando-lhe insegurança.⠀⠀
"Que bem que se via a lua nessas noites de verão. (...) Que bem que se via. A lua alta e amarela a deslizar pelo céu, a coitadita. A deslizar, a deslizar... Alta, alta. A lua."
Como sempre é dito, a cada conto um diferencial, uma peculiaridade, na maioria dos casos, voltadas à feminilidade, de tempos distintos, mas que, com a sutileza e ao mesmo tempo força da escritora ao colocar no papel suas histórias, traz vivacidade e essência ao que intende transmitir àquele que leu, lê e/ou lerá suas histórias.

Por hoje é isso, pessoal!

Me contem:  já conheciam esse conto da autora? Se sim, o que acharam? E se não, leriam? por quê?
Vamos papear!

Beijos literários!



7 comentários

  1. Uau. Nada melhor do que a continuidade desse projeto para homenagear os cem anos de Clarice Lispector! Esse conto foi novidade para mim. Achei ótimo conhecer mais esse conto dessa prestigiada escritora com mais do típico universo feminino presente nesse conto também. Fiquei curiosa para ler!

    ResponderExcluir
  2. Começo dizendo que sou doida pra ter essa edição da Rocco, mas não tenho porque sempre achava ela muito cara. Li vários contos da Clarice, mas não me lembro desse em particular. Amo a sagacidade feminina que transborda no texto dela - e amei a forma como você falou sobre. Ficou muito bom!

    Parabéns. ♥

    ResponderExcluir
  3. Mais um conto de Clarice pelo qual me apaixonei.
    Eu adoro como a Clarice tem uma forma poética para falar de assuntos tão delicados como o fato da mulher ser vista apenas como a dona de casa da família e como um único dia que ela tenta fugir dessa rotina causa estranheza.
    Esse projeto tem sido uma surpresa tão grande. Tenho aprendido demais. Que sorte a minha fazer parte!

    Beijos

    ResponderExcluir
  4. Acho que conheço esse conto. Não reconheci o título, mas história me parece familiar. Já disse aqui que leio Clarice ocasionalmente, um conto aqui outro ali, então é meio difícil lembrar o que já li ou não. Enfim, esse conto me remete a algo que eu admiro muito nos textos de Clarice: a abordagem do universo feminino sem cair em clichês ou falar de forma superficial e padronizada.

    ResponderExcluir
  5. Esse conto em específico ainda não li, mas fiquei instigada em saber mais. Imagino como pode ter sido surpreendente para os padrões da época uma dona de casa não realizar suas tarefas do dia, e certamente Clarice soube captar em palavras poéticas toda a sensibilidade que há por trás dessa questão.

    ResponderExcluir
  6. Clarice Lispector sempre será a mulher mais inspiradora desse mundo, assim como Frida Khalo ❤ Amei o post! ❤❤❤❤❤

    ResponderExcluir
  7. Já falei que amo esse projeto!!! 100 anos de Clarice!!! Esse conto ainda não conheço...Quero ver se começo a ler também...Amei o post
    Abraços

    ResponderExcluir