06/2020: #12MesesComClarice - CONTO: MAIS DOIS BÊBEDOS

"Naquela noite eu já bebera bastante. Andava de bar em bar, até que, excessivamente feliz, temi ultrapassar-me: estava por demais ajustado em mim mesmo. Procurei um meio de me derramar um pouco, antes que transbordasse inteiramente".
Olá, como estão? Hoje vim matar saudades com vocês de um projeto que realizei ao longo de 2019 com AmandaFernanda e Gustavo. Projeto esse que aliás estou dando continuidade a fim de concluirmos um ciclo para iniciarmos outro ainda mais lindo nesse ano em que comemoraremos o centenário de uma mulher que tanto admiro enquanto profissional no meio literário. 

Eu falo do #12MesesComClarice2019, que óbvio, terá continuidade em 2020, ano do centenário de Clarice Lipector.
Bom, se vocês não conhecem, ou não se lembram desse projeto que com orgulho me engajei  no ano passado com os blogs Conduta LiteráriaLeitura Enigmática e Sobre a Leituraaqui vocês conseguem se situar. 

Vamos conhecer um pouco da ficha técnica do livro Todos os Contos, publicado pela Editora Rocco , e que é o "pano de fundo" de nossas postagens?


CLARICE LISPECTOR - Todos os Contos

Editora: Rocco

Ano: 2016

Páginas: 656
Sinopse

Autora de romances e contos que figuram entre os mais emblemáticos da literatura brasileira, Clarice Lispector é considerada uma das mais importantes escritoras do século XX. Sua popularidade alcançou níveis surpreendentes nas últimas décadas, especialmente após o fenômeno da internet, mas sua figura e sua obra seguem exercendo sobre leitores o mesmo e fascinante estranhamento que causaram desde sua estreia literária, em 1943. Nesta coletânea, que reúne pela primeira vez todos os contos da autora num único volume, organizado pelo biógrafo Benjamin Moser, é possível conhecer Clarice por inteiro, desde os primeiros escritos, ainda na adolescência, até as últimas linhas. Essencial para estudantes e pesquisadores, para fãs de Clarice Lispector e iniciantes na obra da escritora, Todos os contos foi lançado nos Estados Unidos em 2015, figurando na lista de livros mais importantes do ano do jornal The New York Times e ganhou importantes prêmios, como o Pen Translation Prize, de melhor tradução. Agora é a vez de os leitores brasileiros (re)descobrirem por completo esta contista prolífica e singular.


Haveria entre dois bêbados, na mesa de um bar, mesmo sem conhecerem-se previamente, certa cumplicidade?

Em um diferencial aos seus demais contos, a mestra da escrita, Clarice Lispector, traz, numa narrativa em primeira pessoa, dois homens como protagonistas. 

Dois homens bêbados, o que sugere um avesso à sua proposta inicial: oferecer ao leitor histórias mil sobre mulheres milhares. Além desse detalhe a ser pontuado no conto  Mais Dois Bêbedos,  outro fato é que ela não lhes oferece nomes.

Em busca de alguém a conversar, um sujeito, alcoolizado, vaga pelas ruas da cidade até que encontra alguém do mesmo sexo, em sua mesma condição física. A partir daí, lamentos  são lançados durante o conto, mas apenas por parte de um deles. 

Enquanto um continha-se, o outro buscava que houvessem desabafos, o que não ocorria, e incomodava ao mais falante.

"Eu possuía o direito de ter pudor e de não me revelar. Era consciente, sabia que ria, que sofria, lera obras sobre o budismo, fariam um epitáfio sobre meu túmulo quando morresse. E embebedava-me não puramente, mas com um objetivo: Eu era alguém".

Em refrigérios, o choque entre a relação com vida e morte nos intima a reflexões através dos devaneios de um deles ao arrebatar o outro. Enquanto um se mostra aflito, o mais calado, o contrário, parece não se abalar.


"_Ouça, vou dizer mais: eu queria morrer vivo, descendo ao meu próprio túmulo e eu mesmo fechá-lo, com uma pancada seca. E depois enlouquecer de dor na escuridão da terra. Mas não a inconsciência".

Por entre assuntos, discursos, monólogos e desalentos, comoção, alegria e lágrimas misturam-se por entre a sóbria embriaguez de ambos.

Quando eu me deparo com essa diversidade provocativa a cada conto que leio de Clarice, tenho ainda mais certeza da minha admiração pelo que ela foi enquanto escritora, e pelo que nos tem deixado como legado através das décadas.

O conto, muito rápido de ser lido, me alvoroçou mais uma vez quando, de maneira repentina, e até estranha, termina como se de forma inconclusa, o que me ressabiou e me levou inclusive a pesquisar e indagar dos meus colegas de parceria no projeto.

 Ah, Clarice!... 
...a gente vai continuar dialogando em 2020, em 2021, 2022...



Já leram Clarice? Conhecem o nosso projeto?
Contem aqui!
Por hoje é isso!

Beijos literários!


8 comentários

  1. Amiga, arraso de post!!
    Sou apaixonada pela escrita da Clarice e essa diversidade que ela nos proporciona. Esse teve um final inusitado e acho que bem proposital também. Gostei muito.
    Que possamos estar juntos por mais esse ano com vários outros contos!!

    bjs

    ResponderExcluir
  2. Ooiii amigaaa
    Estava com saudades ❤️
    Que post lindo *-*
    Fotos perfeitas. Amei

    ResponderExcluir
  3. Ai gente, como eu amo esse projeto!
    Que grata surpresa foi conhecer a escrita de Clarice a fundo com vocês!
    De fato é muito curioso ver ela escrevendo sobre dois homens, nas só prova mais sua versatilidade na escrita.
    Adorei sua resenha, amiga. E que 2020 nos reserve mais doses de Clarice. Um brinde a isso!

    Beijos!

    ResponderExcluir
  4. Eu acompanhei um pouco desse projeto ano passado e graças a ele li um e outro conto da maravilhosa Clarice, ao ver um post ou uma resenha com uma temática que me chamava atenção. Gosto muito de Clarice, mas leio pouco, justamente porque quase tudo que eu leio dela me provoca esse "alvoroço" que você mencionou. As palavras dela sempre me trazem muitas reflexões, então eu leio ocasionalmente, em doses homeopáticas.

    ResponderExcluir
  5. Esse projeto é maravilhoso, acompanhei em 2019 e pretendo continuar acompanhando em 2020. Vocês estão de parabéns pela iniciativa! Esse conto mesmo um final singular, mas não menos interessante. Abraços!

    ResponderExcluir
  6. Olá, Ana! Eu sempre fico muito animada, quando apresenta aqui no blog as leituras desse projeto para ler obras da Clarisse Lispector. Fico muito contente com a sua resenha dessa conto. Adorei conhecer essa riqueza nacional de conto! Muito bom saber da sua admiração por essa mulher também. Ótimo texto!

    ResponderExcluir
  7. Gostei bastante da resenha! Preciso urgentemente ler mais mulheres, preciso me aprofundar nos textos da Clarice (da qual muito pouco li) e seu texto me inspirou!
    Abraços

    ResponderExcluir
  8. Não é o meu conto favorito, cara mia... mas eu gosto do tom experimental e de saber que eram apenas as suas linhas iniciais.

    “De repente, ele tirou o palito da boca, os olhos piscando, os lábios trêmulos como se fosse chorar, disse:”.

    Tenho imenso apreço por autores que conseguem levar consigo as primeiras linhas. Eu as descartei por não suportá-las. rs Clarice, no entanto, assim como tantas outras, foi com elas até o fim. Bravo.

    Bacio

    ResponderExcluir