58/2019: O DIÁRIO DE MYRIAM

"Seria ironia do destino, uma, menina, também de treze anos, escrever seu diário registrando os horrores vividos durante a Guerra da Síria?"
Olá, pessoal! Como estão?
Hoje vim conversar com vocês sobre uma das minhas leituras do mês de novembro que, a propósito, foi também a leitura democraticamente escolhida pela galera do Darkside Readers Team. Vamos conhecer??

Título Original: O Diário de Myriam

Autora: Myriam Rawick

Ano: 2018

Páginas: 320

Editora: Darkside Books
Sinopse

De um lado, uma menina judia que passou anos escondida no Anexo Secreto tentando sobreviver à guerra de Hitler. De outro, uma garota síria que sonha ser astrônoma e vê seu mundo girar após a eclosão de um conflito que ela nem mesmo compreende. Mesmo separadas por mais de setenta anos, Anne Frank e Myriam Rawick têm um elo comum: ambas são símbolos de esperança e resistência contra os horrores de um país em guerra e acreditam no poder das palavras.

O Diário de Myriam é um registro comovente e verdadeiro sobre a Guerra Civil Síria. Escrito em colaboração com o jornalista francês Philippe Lobjois, que trabalhou ao lado de Myriam para enriquecer as memórias que ela coletou em seu diário, o livro descortina o cotidiano de uma comunidade de minoria cristã que sofre com o conflito através dos olhos de uma menina.

Assim como acompanhamos a Segunda Guerra Mundial pelos olhos da pequena Ada em A Guerra que Salvou a Minha Vida e A Guerra que Me Ensinou a Viver, O Diário de Myriam apresenta a perspectiva de uma menina que teve sua infância roubada ao crescer rodeada pelo sofrimento provocado pela Guerra da Síria, iniciada em 2011. Myriam começou a registrar seu cotidiano após sugestão da mãe, que propôs que ela contasse tudo aquilo que viveu para, um dia, poder se lembrar de tudo o que aconteceu.

Escrito entre novembro de 2011 a dezembro de 2016, o diário alterna entre as doces memórias do passado na cidade de Alepo e os dias carregados de incertezas e dolorido. E é com a sensibilidade de uma autêntica contadora de histórias que ela narra a preocupação crescente de seus pais com as manifestações contra a repressão, o sequestro de seu primo pelo governo, as notícias na televisão, as pinturas revolucionárias nos muros da escola e, por fim, os bombardeios que destroem tudo aquilo que ela conhecia.





O "Diário" tem seu processo de tradução iniciado em 12 de junho de 2011, quando Myriam Rawick ainda  é uma criança, e decide narrar seu cotidiano com bastante simplicidade. 

Diariamente, vive-se o horror, o medo envolto às manifestações de revolucionários fundamentalistas que tinham como propósito imporem suas leis religiosas na Síria.

Algo que chama a atenção é que, mesmo consciente do temor constante, a vontade da menina por ir à escola é aflorada, até mesmo pelo fato de que, para aquelas crianças e adolescentes, esse seria um meio de extravasarem, de brincarem, dialogarem, de aprenderem, trocarem vivências e tentarem, por algumas horas, esquecerem de tudo que negativamente os cercava do lado de fora do espaço escolar.
"Lembrei de tudo. Do sorriso do seu Yasser, o pão redondo com grãos de papoula que a gente comprava todas as noites, dos iogurtes que a mulher dele preparava e vendia às sextas-feiras. Os cheiros, os gostos, a felicidade agora estavam aqui, sob as ruínas, abafados sob os tetos desabados".
No "Diário", verifica-se que a narrativa dos acontecimentos intensificam-se a partir de 15/10/2011, que parece ser quando os conflitos tomam maior proporção na cidade de Alepo.



Sua mãe, Antonia, trabalhava na comunidade dos maristas azuis, uma organização laica masculina que se ocupa da educação dos jovens. Através dos relatos de Myriam, nota-se ser uma mulher sábia ao tentar, em meio ao caos, impedir que seus filhos sentissem de fato tudo o que estavam vivenciando.
"E não falei mais nada. Não olhei mais nada também, eu tinha medo demais. Em casa, mamãe tinha colocado velas por todo canto e comemos pão que o vizinho de cima tinha preparado com azeite. Mamãe disse que ela não tinha conseguido sair para comprar alguma outra coisa, mas que não tinha problema, porque a gente adorava piquenique".
Outro ponto que achei muito relevante aos leitores são as páginas iniciais do livro, que contêm cópias das cartas de alguns dos mais de duzentos leitores que pediram a tradução do livro aqui no Brasil .

Dentre imagens que relatam dor e tristeza, a edição da Darkside Books  nos oferece cor, mostrando que sim, é possível haver esperança na mudança, no que possa haver de melhor, na paz, nas crianças...



Bom, sobre minhas considerações a respeito da escrita de Myriam, talvez eu cause certo espanto, visto que esperei muito por essa leitura, mas não consegui sentir a emoção que  tanto aguardava assim como senti quando li O Diário de Anne Frank, que inclusive postei resenha aqui no blog em abril.

Mas eu pretendo me justificar! 

Vejam bem: em minha humilde opinião, como já mencionado acima, em momento algum a diagramação, bem como as artes da Darkside Books deixaram a desejar, muito menos estou aqui para questionar os horrores que, não apenas a família de Myriam, como milhares outras vivenciaram durante anos na Síria e que terão marcas perpétuas.

A questão é: Tive dificuldades em sentir verdadeiramente a Myriam em seu diário. Algumas vezes tinha a impressão de que  sua escrita parecia um tanto mecanizada, se é que conseguem me compreender. Talvez por ter  anteriormente entrado de cabeça em O Diário de Anne Frank? Até pode ser! Vi na escrita de Anne Frank mais sentimento. 

Até tentei (juro!) analisar o período em que cada uma escreveu, considerar as culturas, bem como a idade que Myriam começou a escrever, mas via que, no desenrolar dos anos, permanecia da mesma forma. Além do mais, ambas tinham idades próximas em determinados pontos de suas histórias.
Talvez essa seja uma característica sua, que inclusive atraiu leitores diversos por todo o mundo, mas que a mim não. 

Friso que não é que eu não esteja sensibilizada com tudo que ela relata, mas a forma como a mim foi apresentada, se não o tempo todo, ao menos por boa parte de sua narrativa.



Bom, gente, por hoje é isso!

Espero que tenham gostado e compreendido as minhas considerações! 
Ah, e se não leram, o façam! Não há nada melhor do que ouvirmos/lermos/assistirmos as conclusões alheias a fim de que nos agucemos a termos acesso ao material para tirarmos as nossas próprias!

Mas me contem: já leram O Diário de Myriam? E o que acharam? Me contem aqui nos comentários!

Beijos literários!


5 comentários

  1. Compreendi com muita clareza as suas considerações. Este é um livro que há muito tempo tenho vontade de ler e acompanhando agora a sua resenha me pergunto: porque ainda não fiz? Eu compreendi bem sua pontuação. Querendo ou não, quando geramos muita expectativa com uma leitura a gente acaba às vezes ficando em algum ponto Um pouco frustrado, mas isso é muito normal.

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  2. Acompanhei a divulgação deste livro, mas ainda não tinho lido nenhuma resenha que tenha me chamado a atenção. Achei super interessante a proposta, confesso que não me lembro de ter lido algum nesse estilo, gostei demais.

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  3. Olá, comprei esse livro no começo do ano e ainda não li. Espero ter uma experiência melhor com ele, pois amo essa temática. Sua resenha ficou perfeita, amei. Bjs.

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  4. Gostei demais essa obra, pena que não te agradou muito, mas faz parte. A história em si em muito comovente, mas eu sinto sensacionalismo por parte do repórter que ajudou a garota escrever a obra, o financeiro falou mais alto.

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  5. Eu adorei ler o Diário de Anne Frank! Então é sensacional saber que ambas: Anne Frank e Myriam Rawick possuem esse elo em comum, porque são símbolos de esperança e resistência contra os horrores de um país em guerra. E também, por acreditarem no poder das palavras em tempos sombrios. Adorei ler o que apresentou aqui sobre essa obra maravilhosa. Já quero ler, com certeza. Leitura valiosa!

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