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sábado, 24 de março de 2018

Resenha 01 : Livro A História da (in)Felicidade


RESENHA:  A HISTÓRIA DA (IN)FELICIDADE - TRÊS MIL ANOS DE BUSCA POR UMA VIDA MELHOR




Título Original: A História da (In)felicidade - Três Mil Anos de Busca por uma Vida Melhor

Autor: Richard Schoch

Ano: 2011

Editora: Bestseller

Páginas: 251



Qual o caminho ideal a seguir para se alcançar a tão sonhada felicidade?

Essa é uma das reflexões a que nos leva Richard Schoch na obra intitulada A História da (in)felicidade - Três mil anos de busca por uma vida melhor, com tradução de Elena Gaidano. 

Aliás, uma de suas características é justamente conduzir o leitor de encontro com reflexões diversas acerca da busca pela felicidade, algo que o autor discorre com dados bem sucintos e embasados, tornando o texto de fácil compreensão. De forma neutra, imparcial e com riqueza de conteúdos, além do caráter filosófico, a produção destina-se a todo tipo de leitor que tenha interesse em conhecer a verdadeira história da procura e o encontro da felicidade, entendendo-a no que ela realmente representa a cada um em particular.

Com uma subdivisão bem estruturada, é composta por introdução, um desenvolvimento  em quatro partes, conclusão, notas, bibliografia, agradecimentos e índice.
Já na  introdução, Richard Schoch sugere que "a história da felicidade é infeliz". E transcorre sobre uma profunda reflexão acerca de diversos caminhos que instiga o leitor a 
a percorrer por análises, filosofias e crenças diversas, inerentes à vida humana. Algumas vezes, de maneira até divertida, o autor apresenta o assunto instigando-nos a pensar sobre até que ponto o ser humano é capaz de chegar para alcançar esse sentimento, algo que, para alguns, tem dom supremo. 

O autor transcorre por Epicuro, Sêneca, Aristóteles, Buda, Ghazali e sua alquimia da felicidade. Retrata as visões de diversos filósofos, estudiosos e cita curiosidades, dentre as quais, que Marco Aurélio, imperador romano, em meio às batalhas, registrava suas aflições e pensamentos em seu diário, onde a felicidade, conforme a maneira de ver do imperador, era de caráter implacável e dura. Com eficácia, ao se tratar de espaço-tempo, culturas e maneiras de ver e crer, o autor afirma que "cada um pode ser feliz à sua maneira".


 "... A FELICIDADE É MAIS PARECIDA COM 'A LUTA' DO QUE COM 'A DANÇA', PORQUE EXIGE QUE 'ESTEJAMOS PREPARADOS  E INABALÁVEIS PARA ENFRENTAR O QUE VIER E O IMPREVISTO’". (MARCO AURÉLIO)




Passando dos utilitaristas aos epicuristas, por meio da vida atrelada ao prazer, aspectos diferenciados são relatados, como por exemplo, a maximização e a minimização da dor, segundo Jeremy Bentham, filósofo e jurista inglês do século XVIII. Richard Schoch discursou a felicidade sob diversas abordagens, ainda baseadas em estudos do filósofo e também de seu discípulo, John Stuart Mill, que, mesmo tendo opiniões opostas sob aspectos diversos nesse assunto, acreditavam em comum que o prazer pode sim ser a base para a felicidade,   visão baseada conforme os preceitos utilitaristas.

O autor relata a vida de Epicuro (341-271 a.C.), que pregou uma filosofia mais radical para o período em que vivia, pois para o filósofo, importava levar uma feliz em consonância com o prazer, que segundo ele, era a chave para a felicidade, o que devia causar espanto e talvez até repúdio na época em que vivia, já que, segundo Schoch, "a religião popular não inspirava fé, mas confusão e terror".  

Transcendendo à conquista pelo desejo, Richard Schoch, leva-nos aos princípios do hinduísmo, e o encontro com o verdadeiro "eu" em múltiplas dimensões, nos apresentando a história de Krishna e Arjuna, que segundo ele nos representaria nas diversas tentativas de encontro com a felicidade em questionamentos à vida. De forma simples, através do Gita __ "A Canção do Senhor", diz-se que por meio do Ioga, o encontro com a felicidade passa por três distintos caminhos: o do conhecimento, o do dever, e o do amor. 



" NA CULTURA HINDU, DE TODAS AS MANEIRAS DE ENCONTRAR A FELICIDADE, O AMOR É A MAIS DOCE E MAIS GLORIOSA"


Ao mencionar com criteriosidade a história de Buda e sua filosofia, o autor da obra explica que "o budismo não tem a ver com 'crer' e mais com 'fazer'; é menos uma fé a ser professada e mais um caminho a ser seguido". A história de vida de Buda e as Quatro Verdades  nos levam ao caminho para a felicidade, por meio da prática do desapego e do fato que, para darmos o primeiro passo em sua direção, devemos ver as coisas como  elas são. 

A filosofia sublime da razão por meio do cristianismo e do islamismo também são aspectos a serem traçados pelo autor em sua obra. Segundo Schoch,  pelo cristianismo as vontades de Deus superam as do homem. Assim, com base nas crenças cristãs, a felicidade só seria alcançada  verdadeiramente no pós-morte, ideias que, conforme o autor, vão completamente de encontro com alguns filósofos já mencionados, como Sêneca, por exemplo, além dos estoicos. Dando segmento, Schoch relata vida e obra de Tomás de Aquino, e o achado das universidades com os feitos de Aristóteles, documentos que gerariam curiosidades aos estudiosos, devendo-se salientar que as instituições de ensino, na era medieval, tinham cunho religioso, o que causou, em princípio,  incompatibilidades entre fé e razão.


" O MUNDO EXISTE NÃO PARA NOSSA INFELICIDADE, MAS PARA NOSSA ALEGRIA


Por meio da alquimia da felicidade, Richard Schoch infere-nos que, de maneira consciente ou não, os seres humanos estão em constante busca por algo que talvez esteve ausente em suas vidas. Ghazali, professor espiritual, por meio dos caminhos sufistas, nos leva ao despertar para o que há dentro de cada um. 

Ao afirmar que "não importa quanta penúria um homem feliz enfrente, ele permanecerá feliz" Richard Schoch compara o epicurismo do estoicismo, já que ambos, nesse caso, seguiriam a mesma linha, porém para Epicuro a felicidade relacionava-se ao prazer,   já os estoicos acreditam no fato de a felicidade  estar relacionada à razão, ao fato de que devemos aprender a lidar com as adversidades da vida para então alcançarmos a tão almejada felicidade. 

Com imparcialidade, e com base no judaísmo, o autor relata a história e a fé de Jó , trazendo um comparativo inteligente e ao mesmo tempo questionador ao contar a obra Fé depois do Holocausto, do filósofo judeu Eliezer Berkovits (1908-1992), delineando ainda um paralelo entre bem e mal. Em sua total imparcialidade, o autor discorre brilhantemente sobre a lição do Holocausto e a fé de Jó, fazendo o leitor pensar e inferir sobre que tipo de vida gostaria de ter.




Assim,  das histórias de Epicuro, Sêneca, Cícero, Buda, Ghazali, Arjuna e Jó, percorrendo por crenças, filosofias, indagações e possíveis respostas, Richard Schoch encaminha o ledor a uma série de considerações, e muitos conceitos são analisados, sendo comparados de maneira inteligível, porém que os mostrem que, para se alcançar a felicidade, independente de credulidades, esta deve ser conferida a todos.

A obra conta com uma vasta gama de notas e referências bibliográficas que acentuam a sua credibilidade quanto às diversas citações e fatos mencionados.

Por meio dos relatos certeiros  em meio à toda a obra, o leitor deve se questionar:  

  • como alcançar a felicidade?; 
  • Somos realmente felizes?;
  • O que possuo me basta, independente da intensidade e da quantidade de bens?; 
  • Qual é de fato o propósito humano em buscar a felicidade?

Em meio a diversas  indagações, e à estrutura bibliográfica que o autor utilizou em todo o livro, trazendo uma intensa base histórico-filosófica, e com relação, por exemplo, ao que diz que devemos "sorrir para a tempestade", talvez, em determinados pensamentos e afirmações, possa chegar-se a analisar a possibilidade de a produção estar inter-relacionada à indústria de autoajuda.  Entretanto, a obra, que perpassa pelos ares e e caminhos das filosofias em tempos diversos, apenas nos conduz a meios embasados para buscarmos e encontrarmos esse sentido, que muitas vezes, aos olhos humanos, parecem tão árduos, até se chegar a tão sonhada felicidade.



Richard Schoch é  professor de História da Cultura na London University, onde também é diretor da graduação em Ciências Humanas e Sociais.